Quintas-Icra – Homenagea XXVI EDIÇÃO PROFESSOR FREI JOSÉ APOLINÁRIO KAHOMBO

PorGelson Daniel

Quintas-Icra – Homenagea XXVI EDIÇÃO PROFESSOR FREI JOSÉ APOLINÁRIO KAHOMBO

Quintas-Icra – Homenagens XXVI EDIÇÃO PROFESSOR FREI JOSÉ APOLINÁRIO KAHOMBO – INCURSÃO HISTÓRICA (O LOBITANGA-CANADENSE) –

“Os grande homens, nascem de madrugada.” (desconhecido)

Texto I: Eduardo Carlos Isidro-Educador Social da 10ª Geração-2005 [[Hama Ndulo]]

Em primeiro lugar gostaria de agradecer a iniciativa do “espaço/momento” QUINTAS ICRA, pelo desafiador convite de falar sobre alguém que eu conheci apenas pelo Altar, púlpito, pódio, ao lado do “green board” ou corredores da escola. O desafio é ainda maior por se tratar de falar sobre um Frei. Nestas circunstâncias, foi preciso um pouco de “loucura” para aceitar o desafio. Mas, como “de poetas e loucos todos têm um pouco”, eu faço parte deste todo! Esta homenagem é resultado do adensamento e importância da actividade filosófica demonstrada pelo Professor José Apolinário Kahombo (JAK), tanto no ICRA, “nasce do ouro” da nossa nova família, quanto no contexto nacional.

Pois, ao regressar para Angola em 2001, data em que começa a dar aulas de Religião e Desenvolvimento no ICRA, marcou nossa geração com sua maneira não comum de ser. Apenas recentemente soube, que ele não deu aulas à nona geração (1º ano de 2001), pois, foi substituto do Frei Miguel Chacachama, tendo assumido a disciplina de Religião e Desenvolvimento, depois de seus estudos feitos na Costa do Marfim, como conta o Frei Junito Baptista. “… José Apolinário Kahombo, nasceu no Lobito em Janeiro de 1975. Aí fez a sua formação primária e secundária até entrar no Seminário do Bom Pastor em Benguela onde fez o Propedêutico.

Terminado o Propedêutico, pediu para entrar nos frades Dominicanos e aí foi recebido em 1994 em Luanda. Fez então os estudos filosóficos no Seminário Maior de Luanda findos os quais rumou para a Costa do Marfim onde fez a sua formação teológica. Regressou a Angola em 2001 data em que começa a dar aulas de Religião e Desenvolvimento no ICRA”. De seu talento discursivo, a fecundidade de suas reflexões filosóficas e de sua imensa generosidade, ouvia-se dele que “a viagem é longa, mas não haverá naufrágios. Só naufragará quem se atrever a saltar do barco”. Cartesiano, como a 10ª Geração de Educadores Sociais (1º ano de 2002) apelidou chamar, Apolinário, fez seus discípulos correrem. Como dizia Maurício Londjala, tivemos de fazer “expragatas mentais”.

Chamávamos ele por Cartesiano, fruto da célebre enunciação nos apontamentos da sua disciplina: …“Uma consciência cada vez mais cartesiana, bem como o pensamento segundo o qual, haverá uma relação de causa e efeito…”. Continuava o longo apontamento, velozmente ditado para as nossas mãos trêmulas e pouco hábeis, vindas de um frágil ensino básico. “Os alunos deste ano são fraquinhos…”. Era o que impavidamente ouvíamos de vozes autorizadas nos corredores da silenciosa direção daquela escola. Acredito que foi também este quadro que trouxera o “ano zero” para o ICRA em 2003 (?) ou anos posteriores à minha geração… O rigor do Prof. Apolinário era tanto, que para ele, o sino toca para começar a aula e não para os alunos entrarem. Tanto mais é que uma vez, o eloquente, Cândido Mwetcheno, impedido de entrar na sala pelo fato do sino já ter tocado, sacou da sua alçada uma brochura, réplica da declaração universal dos direitos humanos, fazendo recurso à esta como base de reclamação de seu direito, alegadamente violado pelo Professor. Sereno como sempre, o Professor colcou apenas uma pergunta à Cândido: “O senhor é algum advogado?”.

De repente a “musculatura vocal e argumentativa” de Mwetcheno foi silenciada… O carisma de ensinar e o amor pelas coisas intelectuais, estavam sempre em alta no modo de ser do Professor Apolinário, tanto mais é que em todas as aulas, exigia respostas que ainda não tínhamos… Fazia perguntas que somente os que conheciam a “concentração do espírito” conseguiam “balbuciar” alguns palpites, que também fomos e vamos descobrindo, ainda hoje, o quanto tais suspeitas respostas carrega(va)m conteúdo semelhante aquilo que Lukac´s trata em “El asalto a la Razón”. Meus pronunciamentos hoje, resultam dos efeitos niveladores do conhecimento – grandemente influenciados pelo “cartesianismo” proporcionado – por este Professor, por outros e pela cultura da instituição que nos formou, o que nos acompanha até mesmo depois de termos terminado aquela formação.

O convívio com o Prof. (JAK), exigia também algum equilíbrio, alguma temperança, pois, o Professor – como se diz no quotidiano – não levava desaforos para casa. Tanto mais é que nas entrelinhas transmitia que seria duro com a turma. Ouvia-se dele que “a viagem é longa, mas não haverá naufrágios, só náufraga quem se atrever a pular do barco”. Foi nesta caminhada que sentimos uma espécie de rebarbadora no nosso ser. Que o digam Nsekele Paulo, Delfina Quitongo, Nkissi Pedro, Damião Mazengua, António Receado, Marcos Cafunha, David Manuel “Jessé” (que vestido com gravata, o Professor disse à ele certa vez: “David, o seu linguajar é incongruente com as suas vestes”); Anibal Tchole Frangueira (sobre a autoria de I Timóteo 5:23 – Frangueiras apontou para o quadro dizendo: “Estas palavras são de Mateus!… Calmamente o Professor disse algo como: ainda que fossem, o autor por ti citado não é de sua confiança, por isso deveria ser tratado com alguma reverência). Eu e tantos outros da minha turma, tivemos registos de uma “terraplanagem” no pensamento, na Linguagem, em suma, uma correcção “quase” ontológica do ser (tipo a sacada de Cristo à Nicodemos em João 3:3).

A situação era tal que, quem não consentisse isso, estaria – nas palavras do Mestre – a “travar o desenvolvimento com as mãos”. O Professor, mostrava-se muito bem dotado em termos de investigação “ex-post-facto” como o descrevem os manuais de metodologia de investigação em Gil, Lakatus, Severino, Good & Heat, Minayo, Raymond Quivy, Christian Laville, entre outros. Até mesmo em termos de perseguição e descoberta de indícios criminais. Tais dotes foram demonstrados quando apareceu na sala uma misteriosa mensagem, cujo “remetente e destinatários” nunca conseguimos saber. Encontrado pela Nkissi Pedro, que ao limpar sua carteira colocou-o junto a carteira de Nsekele Paulo, este último fê-lo “acidentalmente (?)” chegar à mesa do Prof. (JAK). No recado em folha rasgada de um caderno com linhas azuis na horizontal, lia-se: “Eticamente falando, não se pergunta o que a prior já sabemos, para depois corrigir a resposta”.

Assinada por El-Shadai Shirai. Este acontecimento trouxe um clima tenso e embaraçoso na sala, o que levou Nsekele –“arguido” – num sistemático interrogatório e a sua suspensão temporária nas aulas do Prof. (JAK). Para o restante da sala, o Professor, num tom ameaçador, assegurou-se que encontraria o autor da mensagem/recado que foi considerado uma afronta à “máxima autoridade da sala”. Até um dia, quando num veloz, e talvez super-sónico ditado de apontamentos, circulou na sala uma lista de presenças, para identificar a letra de “El-Shadai Shirai” – que apesar de ter “bizado” o bilhetinho, na letra: “Desculpe, não voltarei a fazer-lhe serenatas” assinado com o mesmo nome, até hoje nunca chegamos a conhecer o misterioso autor da mensagem…

O modo operandis do ICRA, que por vezes nos levava a acreditar no “Olho-de-deus em fast furious 8”, quem sabe entre as reprovações daquele ano esteja o ou a “El-Shadai Shirai”. Estes fatos objectivos não esgotam a rica, construtiva e emocionante experiência na convivência com o Prof. (JAK). Mas coisas podem ser ditas sobre esta grande figura. Sempre notei no Professor, uma aura que “tomando de empréstimo a imagem oriunda de Grandes filósofos”, o Professor falava-nos de Baguagua Gitá, Pratman Bawer, Amadou Hampâté Bâ, Cícero, e categorias de análises como o Cristianismo – a trindade e Cristo; o Judaísmo – os mandamentos e Moisés; o Iduísmo – as castas e Gandi. O Professor levou-nos de viagem para a “fenomenologia (religiosa)”, categoria insuprimível na Disciplina por ele leccionada. Teria sido na tentativa de “iniciar-nos” nesta matriz de pensamento (?) – que hoje pensamos se tratar da “redução fenomenológica” – cuja linha de impulsionadores se pode elencar Husserl, Sartre e Merleau-Ponty.

O Professor, alertava-nos para nos concentrarmos naquilo que realmente importava, o que o levava a afirmar em sala, que “a diferença entre uma maçã e um presunto, terminava na garganta”, porque depois destes alimentos passarem para o estômago, não há diferença um do outro, nem o custo que cada um encerra. A aparente diferença é somente uma espécie de sensação. O contra-peso desta matriz de pensamento, se pode encontrar em “o mistério da construção especulativa”, cujo desenvolvimento – por inúmeras razões – não cabem no presente espaço.

Para muitos de nós, as palavras em si no discurso do Professor, não eram novidades, mas a perspectiva de análise apresentada, levou mesmo uma boa parte de estudantes rever as posições e convicções – inclusive as religiosas – se não mesmo manter-se em posições ferrenhamente defensivas. Não estranha, se hoje existam alunos de minha geração ou de outras posteriores, que deixaram de frequentar a Igreja, pois, estudar as personagens bíblicas separadas de seu “revestimento divino” bem como situar no tempo cronológico os fenómenos mencionados na bíblia. Ouvir de um Frei como surge o divino na matriz por ele utilizada nas aulas – foi como se sentiriam as baratas num recipiente quebrado diante das galinhas… (morte das crenças). Como dizia o Professor em causa, “O homem é resultado da sua crença, aquilo em que ele cré é o que ele é”. Matando sua crença, morre também o homem e vira barata na garganta da galinha.

O Nada! Imagino as dificuldades que o Professor teve – recém formado num ambiente mais ou menos afinado em termos de produção filosofia – e deparar-se com um contexto magro em termos de reflexão diferente da corrente “puramente positivista” e princípios éticos. Aprendi com o Prof. (JAK) que de nada valem rios de dinheiro, leis, regulamentos, técnicas, programas, falatórios e papelórios, arquivos, pontos e sebentas, se a ela não presidir um ideal, um amor às coisas intelectuais. É como dizia D. Imbamba. “A inteligência sem vontade é coxa, a vontade sem inteligência é cega”. Deve ter sido por isso que o Prof. (JAK), sempre recusou com energia perene a improvisação, repeliu com fúria os improvisadores e grosseiros, por osmose, por acção catalítica, através de negociatas e arranjos, ou questão de vulgar moralidade. É aqui que valerá lembrar o Prof. (JAK), quando nas provas pedia que nos debruçássemos, em meia página, sobre o que aprendemos sem usar as palavras dele.

Os verbos, advérbios, adjectivos, preposições podem ser usadas porque são da língua portuguesa, dizia ele. Quando a “regra de jogo” era escrever verdadeiro ou falso, está totalmente errado, e sem negociações, quem assinalar com “V” ou “F”. Na mesma senda da verticalidade de José Apolinário, a quando da aplicação de uma prova à colegas que a tinham perdido na primeira época, um aluno chegando à ele disse: Professor, gostaria de fazer a prova. Na sua temperança, o professor disse: “não se trata de uma questão de gosto. Trata-se de um exame!” Prof. (JAK), soube aprofundar a seriedade e dignidade da vida intelectual em solo angolano. Por negar confinar-se em Luanda, onde havia começado a sua vida como Frade Dominicano, em 2007 foi viver no Waku-Kungo, tendo dado o seu contributo como Professor de Filosofia no PUNIV daquela cidade.

É um Professor de referência entre seus pares, O Prof. (JAK) teve pleno êxito em concretizar as esperanças do fundador Frei João Domingos, que conclamava aos formandos a agir como aqueles cuja “verdade deve libertar” pela ida ao seu povo, ama-lo, apreender com ele e servi-lo, caminhando com ele partindo do que ele sabe e construir sobre o que ele teve, tem ou venha a ter. Aqui, arriscamos afirmar que não foi por outra razão que foi recebido nesta congregação, dominicana, senão pela sua ampla erudição e seus estudos, entre outros, aqueles sobre os quais partilhou connosco, que hoje não consigo precisar sé se tratava de uma linha Kantiana, Hegueliana ou Merlopontiana…. mas que angariou respeito entre seus alunos, disso não restam dúvidas. O Prof. (JAK) foi um solo fecundo em que germinou com admirável profusão e abundância a semente plantada pelo mestre… nós os Educadores Sociais, somos essa semente.

Nós, continuadores deste legado, estamos cientes da responsabilidade que temos sobre nossos ombros. Ao mesmo tempo, avançamos confiantes, já que temos exemplos em que podemos nos mirar para levar adiante aquilo que foi semeado desde os anos 2002 do século XXI no ICRA em Luanda.

Canadá é a actual residência do Professor José Apolinário Kahombo! Oxalá estejamos nós, a quem compete levar adiante esta história, à altura da magnitude intelectual e da grandeza moral de nosso mestre, para que possamos nos dedicar com carinho ao belo legado que ele nos transmitiu.

Texto II: Ernesto Almeida -Educador Social da 14ª Geração-2009 [[Pequilson Mbanza]]

I I – Frei José Apolinário, um frade dominicano, de elevadíssima erudição e cultura. era uma pessoa muito simpática, amável, cordial e eloquente. As suas aulas eram um verdadeiro viveiro de sapiência e inspiração para a vida. As aulas do Frei Apolinário começavam sempre com uma “estoria real”, mais ou menos assim: meus amigos, ontem fui convidado ao Janela Aberta para falar sobre sexualidade e fiquei espantado a ouvir um psicólogo aconselhar os casais a fazerem sexo. Como pode um homem fazer sexo? Só Deus pode fazer sexo. Quando eu disse isso todos ficaram espantados.

A turma toda emudeceu. Este frei é louco, só pode, Deus fazer sexo? Marques, um colega que sempre ripostava o frei levantou-se: “pro pro prossor”, isso e uma blasfémia. O Frei calmamente, sempre com as suas mãos ao bolso, sorriu e continuou: os homens não fazem sexo. O que os casais fazem é coito, não sexo. Nem relação sexual. Foi nosso primeiro espanto. O dia mesmo que o frei quase nos matou chegou na sala, meteu a mão no bolso, nos fixou e disse: hoje enquanto celebrava a missa da manha fiquei bastante espantado em saber que existem até Padres que não sabem que Deus não existe. “Murmuros” na sala, sorrisos de alguns, indignação de outros. O Marques levantou-se “pro pro pro, prossor”, como o Frei não conseguia ouvi-lo por causa do barulho, o colega disse: mas colega, estão a rir o quê?! O frei Apolinário fez aquele seu sorriso vaidoso, virou para o quadro e escreveu a frase no quadro: “prossor, colega, stao a rir quie??” Olhou para o Marques e disse: meu caro, este e um suicídio literário! A turma toda perdeu o controlo de tanto riso.

O Frei, continuou calmamente: Deus não existe. Existir, vem do latim e significa vir de e estar em. Deus não veio de lado nenhum e não está em lugar nenhum. Logo, é um erro crasso dizer que Deus existe.
O colega Brandão levantou, Frei Deus existe, ele está no Céu.
O Frei o questionou: Céu é a onde? Lá em cima. Em cima está o tecto colega: Não professor, depois do tecto;
Frei: Estão as nuvens;
Colega: Depois das nuvens?

Frei: Esta a atmosfera e outros planetas. Se Deus estivesse lá já o teriam visto nas fotos que Yuri Gargarin tirou no espaço. Brandão sentou e disse: nada Frei, eu sou seu fã. O Frei olhou pra ele e sorriu: isso e tão pouca coisa, pensei que fosses dizer que és fã de Cristo! Frei Apolinário marcou a nossa vida toda. Seu carácter humanitário e cheio de amor nos conduziu a olhar o próximo com compaixão. O frei, ficou 3 meses sem receber salário e mandou usar o dinheiro para comprar livros para aumentar na biblioteca. Foi um gesto que nunca esqueci. Frei Apolinário era a estrela mais cintilante do Céu estrelado da nossa aprendizagem. Muito se podia contar, mas o espaço é pouco, mbora quintar manos!!!

Quintas-Icra – Homenagens – Continua no primeiro comentário!

“OS GRANDES HOMENS, NASCEM DE MADRUGADA”

VAMOS QUINTAR, NESTA INCURSÃO HISTÓRICA AO NOSSO ICRA!

Sobre o autor

Gelson Daniel editor

IndiraPublicado em8:45 pm - Abr 26, 2019

É isso mesmo! O Homem é resultado da sua crença, assim ele crê, assim ele é!

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