Um psicólogo vencedor

Porstelio

Um psicólogo vencedor

Nuno Manuel Pimpão dos Santos nasceu no Bungo, Uíge, há 41 anos. O seu pai, Manuel dos Santos, era professor do ensino básico e a sua mãe, Luísa Pimpão, acompanhava o marido nas andanças por Angola sempre que ele era transferido, de escola em escola.

O psicólogo é professor universitário
Fotografia: Edições Novembro
Nuno Pimpão, como é conhecido pelos colegas, é licenciado em Psicologia, dá consultas no Hospital Psiquiátrico de Luanda, é docente universitário e dirigente da Associação Angolana de Psicologia. Aos dez anos Nuno Pimpão é surpreendido pela morte do pai, a sua referência. Foi o primeiro choque na vida do jovem Nuno, cuja meninice foi em parte vivida no Lubango e foi forçado a abandonar o Bungo e ir viver com a irmã mais velha, Amélia Claudete dos Santos, no bairro de S. Paulo, em Luanda.
Amélia, diz Nuno Pimpão, é exemplo de uma mulher excepcional que lutou sozinha pela sobrevivência, como vendedora, ao mesmo tempo que cuidava dos irmãos. O ensino primário, conta Nuno Pimpão, fê-lo na escola da Igreja Católica de S. Paulo, o Colégio Angolano, na rua-fronteira com o Bairro Operário, e depois prosseguiu os estudos na escola Njinga Mbandi.
Nuno teve desde sempre “sonhos utópicos”. Mesmo quando, depois da morte do pai, ele e os irmãos se tinham de cobrir com sacos de ráfia, tal era a sua pobreza, ele sonhava.
Preso ao sonho pega na mochila, e aos 18 anos, toma o caminho do sul e viaja para a África do Sul por terra, passando pelo Lubango, Santa Clara, Windoeck e finalmente chega à fria Cidade do Cabo.
De repente vê-se num mercado de fruta, onde é vigarizado pelo dono de uma barraca e quase esfaqueado. Depois de várias peripécias e de muita fome, encontra no Metro um camaronês que jogara futebol no Sagrada Esperança e pouco depois encontramos Nuno Pimpão à porta da hospedaria da senhora Graeny, onde conheceu mercadores do Zimbabwe, Etiópia e Moçambique, que lhe deram negócio de venda de esculturas.

Determinação

Em 1997, com 20 anos, Nuno Pimpão regressa por terra a Luanda, e altera de novo a sua vida. Sem emprego, bate à porta do Instituto Normal de Educação Garcia Neto, mas tem de pagar 300 dólares. Não desiste. Um amigo convida-o a ajudá-lo na actividade de troca de dólares no bairro de São Paulo. Nuno aceita e aí está em nova actividade, conseguindo os valores para se matricular.
Nuno trabalhava de dia na rua e estudava de noite. Assim se constrói uma vida, com esforço contínuo, sem desfalecimento, sem desculpas. Em três anos de muita fome mas também de muita determinação, Nuno conclui o ensino médio com mérito, com a classificação final de 17 valores, sempre no Quadro de Honra.
E agora? Pergunta o jovem Nuno, pensando no ensinamento do seu saudoso pai, “filho estuda e tira um curso para ajudar as pessoas, estuda Medicina ou Direito”. O professor Anacleto Teixeira orientou-o para o curso de Psicologia, e Nuno até hoje está grato ao seu professor do Ensino Médio. E aí está Nuno Pimpão, com pouco mais de vinte anos, “inaugurando” a Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto para cursar Psicologia.
Foi um período muito duro, sem emprego, confiando sempre em milagres para o dia de amanhã ser melhor do que o de hoje. Saía às cinco horas da manhã de casa, com o seu amigo e colega de sem-
pre Nvunda Tonet, nem ele sabe como chegavam à faculdade, passava fome e mais fome, cuspia sangue, mas sobreviveu e venceu.
Cinco anos de novo êxito escolar, Quadro de Honra, média final de 17 valores, e o estágio feito no Hospital Psiquiátrico, onde ingressou por concurso público em 2008.
Dois anos depois avança para um Mestrado numa universidade americana de Saúde, Educação e Qualidade de Vida. Nuno Pimpão não fica por aí.
Os seus horizontes são mais vastos. Vai à Argentina, em 2014, inscreve-se num Doutoramento em Psicologia Clínica. Nos meses de Janeiro e Junho o jovem psicólogo parte para Buenos Aires e frequenta a alta especialização e até agora a classificação não varia: “nota máxima!”.
Casado com Madalena Paxe Dhanis dos Santos, com quem tem duas filhas, Nuno Pimpão considera-se uma pessoa vencedora e realizada. Diz que conseguiu alcançar coisas que não sonhava, especialmente o reconhecimento. O professor da Universidade Óscar Ribas não quer deixar passar em claro o facto de muitos governantes terem sido seus alunos.
O álcool e as outras drogas são, diz Nuno Pimpão, um fenómeno novo entre a juventude angolana, que começa muito cedo, pelos dez anos, a consumir. Mas no seu consultório não é raro receber crianças com apenas dois anos já com problemas mentais. A depressão, explica Nuno Pimpão, é mais perigosa do que a Sida. No dia a dia da sua actividade clínica também são frequentes casos de pessoas mentalmente afectadas por práticas de algumas seitas religiosas.
Os psicólogos em Angola são pouco mais de seiscentos, um número exíguo para as necessidades reais de uma sociedade atingida por problemas muito graves. A Associação Angolana de Psicologia, da qual Nuno Pimpão é membro-fundador, pretende inverter este quadro deficitário, apoiando e orientando os jovens na sua vocação.

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